Mostrando postagens com marcador realismo fantástico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador realismo fantástico. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de fevereiro de 2023

LANÇAMENTO!!!







         SAIU MEU PRIMEIRO LIVRO

Um sonho de criança que agora está no papel: palavras e imagens.
Preço promocional R$29,90 com direito a brinde: uma higienização oral na Clínica Vida.
Encomendas no insta @izaidacarmo



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

EU NÃO VIM AQUI SÓ PRA COMER



                   



Fui convidada para uma festa de casamento.
Em mais um capítulo de malandragem e estelionato, a festa era um engodo. Faltaram: decoração, música, cadeiras, mesas, buffet, garçons, bebidas, toalhas, pratos e  talheres... – os noivos levaram um cano.
Mas quem é que se importa com um monte de panos espalhados??? Só enfeites!!! Que importância REAL têm estes materiais na festa? E a comida? A bebida? O que é mais importante?
De olhares esbugalhados e bocas dissimuladas, a maioria dos convidados saiu de fininho! Sem ter o que comer e beber, não tardaram a desertar. Afinal, era preciso espalhar a notícia do ocorrido, como se fosse um furo de reportagem. Com ares de falso pesar, homens e mulheres se afastaram à francesa. Restaram poucos. E estes se empenharam em resolver o problema.
O rega-bofes foi, finalmente, preparado para quem? Para os amigos ou para aqueles que não se importam senão em comer, beber e futricar??? Quem merece a festa, afinal? Quem merece, certamente, tem competência para fazer sempre melhor...
Conseguimos alguma carne, no açougue de um conhecido. Fizemos uma vaquinha pro carvão e garantimos o churrasco. Como todos nós temos amizade com algum dono de boteco, foi moleza conseguir cerveja e refrigerantes gelados, no capricho! Servimos a nós mesmos durante a comemoração, em clima de galhofa e alegria. Mais tarde, chegou uma tia do noivo, trazendo caldeirões de caldos: canjiquinha, rabada e vaca atolada.
Aplausos. Muitos aplausos!!!
Chegou um conhecido com um violão!
Foi a melhor festa de que tenho registro em minha memória.
Sentados em volta de uma fogueira, exaustos de tanto improviso, vimo-nos intensamente plenos ao afirmar e viver nossa amizade.

Durante a noite, da fogueira acesa com a madeira que nos dá nome, suspiros de calor vão se esvaindo:

B R A S I L                ardendo e queimando
     L I S A                   aumente o fogo
 L I B R A S               não se venda por tão pouco
    I R A S                               ...
   S A R I                                por Ghandi, resista...
S   A   L                           atreva-se a temperar o mundo.
      B I S

Leia-se tudo de novo!

A fogueira pede BIS!

Fui convidada a reencarnar/nascer no Brasil. Em mais um capítulo de malandragem e estelionato, a festa era um engodo.
...

No Brasil vai ser assim. Quem ficar por amor, quem não veio só pra comer, vai se dar bem no final. O problema é que o brasileiro veio se preparando – há mais de quinhentos anos – para uma festa de panos, espelhos, apitos, chapéus... Quem restar, verá! Quem ousar participar, será protagonista de uma história, ou melhor, da História.


Izaida Stela do Carmo Ornelas




quinta-feira, 28 de junho de 2012

SENTIDOS



Não existem horas mais perfeitas para os mistérios das coisas que as horas escuras. Parece que a escuridão, ao prejudicar o sentido da visão, aguça o tato, o olfato, a audição, o paladar, a intuição; suspende a certeza, a convicção do real e, a partir daí, tudo pode acontecer...

Numa dessas noites, dentro de um barraco feito de tábuas e outros rejeitos do mundo civilizado, uma criança chorava. A mãe a acalentava durante um tempo que já não sabia mais... Primeiro a embalava e, com o crescer da angústia, passara a sacudi-la, sem ao menos perceber que a criança dormira...

Despertando de seu alucinado movimento por um barulho qualquer, deitou seu pequeno fardo envolto em trapos e foi avivar as brasas do fogão de lenha – sua fonte de luz e calor, pois nunca lhe servia para cozinhar o que não havia.

De repente, sua aparência conformadamente catatônica transformou-se em muito o que fazer: pegou seu caldeirão feito de lata antiga de gordura de coco, dessas que hoje nem encontramos nos supermercados, e começou a cozinhar o sustento para o sono que a fome espantava. Em seu transe, pôs-se a juntar os ingredientes necessários para fortalecer-se e a seu pequenino: ferveu seu amor para servir de base à sopa, picou boas intenções da sociedade, juntou promessas e mais promessas do governo, do padre, do pastor, do ex-marido; derreteu uma colherinha que restava do seu salário injusto, refogou em seu suor, temperou com suas últimas lágrimas de esperança. Não colocou seu passado, nem sua infância, para não correr o risco de azedar. Porque passado de pobre é muito forte! É pesado!

Assim cozinhou madrugada afora... Esqueceu-se, dormiu e acordou serena, com cheirinho de comida pronta, com balbucios e risos de criança. O barraco não era o mesmo, estava revestido de paz. No fogão de lenha um anjo mexia o caldeirão que agora era de ouro. Ao levantar-se, olhou pela janela do barraco, viu nuvens e despediu-se da noite. Seus sonhos teriam luz para realizar-se. Olhando uma segunda vez, notou que o barraco voava e seus olhos se fecharam.

Meus olhos se abriram e comecei a me preparar para mais um dia de trabalho. Meu marido trouxe o café e os jornais, cuja principal manchete anunciava: BARRACO PEGA FOGO NA FAVELA...


                 Izaida Stela do Carmo Ornelas

sábado, 5 de maio de 2012

CÍRCULO VICIOSO




Moramos em um conjugado - alugado – na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo. Viemos de um salário humilde – somemos os vencimentos. Tomamos dois ônibus lotados por dia – bem divertido; é lazer. Pagamos todos os impostos – atrasados. Usamos roupas de marcas famosas – como todos os outros casais de classe média/alta. Assim somos definidos. Auto-identificados...
Meu marido comprou hoje um jogo novo de cozinha igual àquele de novela. O velho eu reformei e coloquei no banheiro. Deu um toque muito original. Aproveitando o cartão de crédito oferecido pela loja, trouxemos uma nova geladeira, um colchão e um vídeo-cassete. Um luxo.
Concordo plenamente com minha vizinha ao afirmar que “nos dias de hoje cometer a loucura de comprar é uma necessidade”. Aproveito a necessidade de retribuir os presentes de meu marido para relaxar olhando as vitrines. Durante uma tarde em Copacabana encomendei onze vestidos, um Summer e seis jeans personalizados.
O aumento dos salários nos encorajou a adquirir uma cama nova, já que a outra fizemos de sofá e também um sofá, porque a cama era extremamente desconfortável. Acompanhando as peças, escolhemos alguns objetos decorativos que combinavam.
Na noite seguinte soubemos notícias sobre um aumento dos gêneros alimentícios. Pela manhã fui ao supermercado e trouxe quinze pacotes de comida pra cachorro. A moça garantiu que era bom. Mas não temos cachorro. Resolvemos empilhar no canto que nos serve de quarto, atrás do biombo japonês.
Passados três dias, dos vinte e oito metros quadrados ocupados, restavam-nos três: perto do fogão na cozinha, o espaço do vaso sanitário no banheiro e, naturalmente, a frontal da TV. Isso somente porque aguardávamos a chegada de alguns tecidos, produtos de beleza e tijolos tipo lajota.
Pela madrugada saímos pela rua. Felizes por ter a casa suprida. Entupida. Não mais trabalharíamos: aposentadoria. O tempo acabou passando. Pensando nisso ganhamos a areia da praia: nus. Ainda não havíamos comprado livros. Nem discos...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

AMADOS MOINHOS PATRIOTAS




A quem possa interessar...

Estranho amar um lugar...
Com o mesmo amor reservado às pessoas...
Exato nas mesmas alegrias – e dores!
Na confusão daltônica de cores,
No surreal encontro de cheiros e sabores...
Amor que causa frenesi e arrepia.
Onde nenhum sentido, nem razão,
Bastam ou explicam:
Bizarro em seu desejo,
Latente em sua pouca coragem...
E o amor proibido tende a crescer.
Torna-se o próprio céu sobre nós:
É o escudo e o dragão
Em relação.
O estranho não compreende
E o comum não percebe facilmente
Que algo Divino acontece aqui.
A busca plena dos amantes,
Proibida e coagida,
Fornece luz enquanto viva.
O estranho – aí - percebe facilmente
E o comum despreza,
No fundo de sua ignorância,
A vida que essa luz lhe dá.
Na covardia do amante que sonha,
Aconchega-se o elemento fatal.
O amor estranho por um lugar
Perde-se em perigos anunciados
Centrados em ameaças.
O lugar fica triste
E o comum percebe, enfim:
A luz do amor se enfraquece
E o amor do nobre Divino não foi
Escudo bastante...
O dragão fortalecido
No hálito das banalidades,
No rugido da burocracia,
Na sordidez da corrupção,
Vence.
Estranho torna-se o amante.
O comum, novamente ludibriado,
Dá gargalhadas,
Enquanto o dragão lhe alimenta
E lhe deleita os sentidos.
Dom Divino jaz ao lado...
Seu amor estranho
Seria diamante dessa terra.
E os moinhos de vento,
Quixotescamente,
Os trituram sem cessar...

sábado, 9 de outubro de 2010

QUÍMICA

"Por duas esferas azuis
de entre pétalas de borboleta" (Ferreira Gullar)


um átomo cedeu-se a outro
numa calma manhã de chuva.

Que pequenas!
        Que ínfimas!
               Que insignificantes partículas!
                       Azuis...

Nesse dia - mais tarde sem chuva -
esses dois cúmplices calculistas
planejaram um ato de fé ambiciosa
e se organizaram cautelosos
na estrutura simples de um botão:

Natural,
      contente de si
           e palpitante ao desabrochar
                    assim...

E tudo começou
por duas esferas azuis,
de entre pétalas de borboleta,
pintando aqui e acolá
                   flores.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Por uma gota




Me detive uns cinco minutos diante de uma livraria, disposta a comprar aquele romance antigo, de damas fascinantes e cavalheiros apaixonados. Indaguei o preço, mandei embrulhar... Enfim: comprei. O pacote ficou mal feito, mas não me importei. Naquele dia eu estava muito feliz.
Continuei a percorrer as ruas decoradas de vitrines, até que percebi um gotejar saindo de meu embrulho. Rasguei-o sem hesitar, excitada por saber como ocorria o fato de um livro pingar letras na calçada. Constatei que uma página – felizmente a última – estava quase vazia.
A princípio me desesperei, pedi ajuda, pensei em chamar a polícia, mas de nada adiantou. Comecei então a catar as letras caídas: aqui está o A, logo lá na escada vi o i – custei para achar o pinguinho que rolou para o asfalto. Ali temos o L, junto com o O, C e N. Será que já encontrei tudo? Não. O rapaz da sapataria veoi me entregar, meio amassados, outro L, outro A, um M e um E. Que confusão!
A esse pé de acontecimentos, já não me sentia feliz: estava furiosa.
Li o parágrafo de onde escaparam as letrinhas e logo decifrei a palavra MELANCOLIA. Droga! Ficar tão nervosa por causa de uma combinação de sentido tão medíocre...
Subi até o alto do Edifício Brasil e de lá despejei a ingrata:
............... M E L A N C O L I A
................ M E L A ....... C O L A
....................... M A N C O
........................ L O L A
.................E L A ......... L I A
...................M E L ... C A N O A
.....................M E L A N C I A

Que se espatifou de encontro ao asfalto.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...