sábado, 16 de maio de 2015

INDIGNAÇÃO






Todo fato que nos sensibiliza e nos põe em movimento é uma indignação. A partir da indignação, nós nos colocamos em digna ação para fazer frente ao mal, à injustiça, à arrogância e ao preconceito.
É ação digna a recusa em tirar uma fotografia ao lado de um político corrupto ou mesmo com aquele cidadão de notória “malandragem”. É dizer “não” ao pedido de voto do candidato que não se porta de forma honesta.
É ação digna cobrar de seu prefeito ou seu vereador uma postura condizente com as promessas feitas em campanha. Também é repreender o funcionário que fala mal da empresa em que trabalha e o servidor municipal que denigre sua cidade. É buscar coerência ética.
É ação digna reconhecer-se imperfeito sempre. E lutar pela evolução, pela reforma íntima. Servir sempre, ao próximo como a ti mesmo, dignamente.
Para se indignar de verdade não basta fazer beicinho, bater o pé... Para se indignar de verdade é preciso combater, reagir, colocar-se em alerta. Não aceitar o bullying, nem o preconceito, tanto quanto não aceitar-se a ingratidão... Ações dignas nascem de dentro para fora, de cada pessoa. E ganham a sociedade.
Sair por aí, protestando por protestar, não tem nada de indignação. Só é legítima a ação que propõe resultados. Quando aponta o problema, acena com a solução. Há reciprocidade no ato; todos os lados crescem.
Indignar-se não é julgar, mas analisar sem pressão de pesos, sem estar medindo nada.
Para quem diz que indignar-se não é um ato caridoso, lembro que, afinal, caridade é coragem. É caridoso deixar que o outro “se dê bem” e não aprenda nada? Onde os acomodados vêm caridade, vejo omissão.
Ações dignas são necessárias. Digo mais: são urgentes!



Izaida Stela do Carmo Ornelas



sexta-feira, 24 de abril de 2015

ENVELHECER





Coisa estranha é essa de se ficar velha...
Algumas cicatrizes somem, como se a gente voltasse à infância, ensinando a esquecer, a apagar. Outras cicatrizes mudam de lugar, como se nos convidassem a pensá-las de forma diferente, sob outro ponto de vista. Novas cicatrizes vem conviver conosco...
As pontas dos dedos ficam enrijecidas como se nos dissessem: “Agarre tudo depressa! Não tenha medo. Deixe de lado a etiqueta e use mais sua ética!”
Os olhos tão velhos de esfinge sabem que os óculos de grau já se tornaram descartáveis... Descontáveis... Porque as lembranças por detrás deles entram em ebulição: quanto mais profundas, mais pululam...
É justamente quando os retratos na parede começam a doer mais forte... Os heróis nos aparecem desmascarados: bandidos, falsários, pedófilos... Quando vemos tudo, entendemos tudo, mas tudo nos é pretenso, dissimulado, escondido pelos outros...
O gosto passado, que não se repetirá, ecoa na língua, feito um agouro. O cheiro de tempo chega a alucinar, querendo que seja novamente sentido. Assim como o tato, estão presos no passado... Torturados por não se fazerem sentidos presentes.
E a vida exterior ainda prossegue, nos ameaçando: Alzheimer, Parkinson e solidão.  
De resto, só a bondade de Deus aliviando o pesadelo. Porque a Verdade não falha, mas tarda...
De resto, a eternidade.

Izaída Stela do Carmo Ornelas





domingo, 22 de março de 2015

APRENDENDO SEMPRE




            



Nos últimos meses, estive presente em velórios de amigos e parentes. No meio da comoção geral, comecei a observar o sentimento, a dor, a morte. Perguntei o que é que poderia aprender disso tudo...
Quando percebi a sinceridade em cada olhar triste, em cada abraço, entendi: é preciso fazer diferença na vida das pessoas. Presenciei a despedida – temporária – entre pessoas que tinham entre si amizade, carinho, afeto, solidariedade. Consolador. Gostaria que meu velório fosse assim: com meus irmãos verdadeiros, de vida, mesmo que poucos.
Por intuição providencial, lembrei-me das pessoas que não terão este capítulo bonito em suas histórias. Sim. Quem nunca ouviu um “já vai tarde!” ou mesmo um “vou soltar foguete!” quando o falecimento de alguém é anunciado. Credo! Será que me enquadro nesse conjunto? Melhor colecionar amigos do que criar inimigos.
Aprendi num livro de Chico Xavier, emprestado pelo Gésus, meu companheiro de trabalho, a seguinte estória: “Um rei mandou que seu filho reunisse soldados e deu a ele mantimentos e riqueza, para que ele destruísse todos os inimigos do trono. Ao retornar ao palácio, o filho do rei tinha feito Justiça em todas as províncias do reino, distribuído os mantimentos, beneficiado as comunidades com o trabalho dos soldados. Havia selado a paz em todos os lugares. Não havia destruído os inimigos, transformou-os em amigos.” Guardei com carinho o ensinamento.
Este conhecimento foi repartido com uma amiga, que estava incomodada pelo som alto de seu vizinho. Contei a estória. Aconselhei-a a torná-lo amigo, a conversar e esclarecer, pois o conheço bem e sei tratar-se de boa pessoa. O problema foi resolvido. Aposto que até os outros vizinhos, beneficiados pelo som mais baixo, ficaram mais felizes!
Assim, decidi escrever esta crônica para pedir aos leitores destas linhas que tirem um pouquinho do seu tempo para fazer uma prece em favor destas pessoas que semeiam a maldade, a maledicência. Quando aparece aquele irmãozinho do mal na TV, quando cruzamos pelo notório antipático na rua, vamos fazer uma prece para que os corações destas pessoas se abram para o bem. Quem sabe nossas preces serão atendidas?

Izaida Stela do Carmo Ornelas





segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O MENININHO




Numa das reuniões da Casa Espírita, alguém me contou esta história (acho que foi o Jhony Bernardo) e sempre me lembro dela quando ouço pessoas discutirem a profissão docente.

Uma rodinha de crianças conversava na hora do recreio, fazendo planos:
Marquinho - Eu vou ser advogado, depois um promotor ou juiz de direito, ganhar muito dinheiro.
Juquinha – Eu vou ser policial, delegado de polícia, prender bandidos, defender a cidade. Serei um herói.
Malu – Prefiro ser médica, salvar pessoas e ainda ganhar uma boa grana...
Assim foram falando, cada um, seus objetivos para o futuro: jogador de futebol, psicólogo, etc.
Só Joãozinho não falou... Até que foi perguntado.
- Eu vou ser professor, disse ele.
A risada foi geral.
- Você vai é morrer de fome, que ninguém dá valor a professor não, debochou o grupo.
E Joãozinho esboçou um sorriso de confiança e desafio, quando explicou:
- Eu vou ser um professor muito bom. Vou ensinar as crianças a serem boas, a agir e raciocinar com justiça. Com isso, não vai ter muito trabalho para advogados, policiais, juízes, promotores e delegados! Vou ensinar as pessoas a cuidarem melhor de sua saúde, diminuindo o número de doentes e de clientes para a medicina.  Vou encorajar as crianças a buscarem o esporte mais pela saúde do que pela competição, colocando o valor do futebol longe da especulação dos cartolas. Meus alunos serão confiantes, corretos, solidários; quase não vão precisar de psicólogos. Vou cumprir minha missão.
E todos saíram dali com outras idéias...

Sou professora. Concluí o curso de Magistério em 1984, na Escola da Comunidade Divinense. Trabalhei na área até assumir concurso público no Banco do Estado de Minas Gerais – BEMGE. Sou fã da profissão e amo ver a vocação nos ideais de jovens, como a Laurinha Breder. Ela escreveu: 

Para aqueles que nos criticam por ser professor ou por estar estudando para ser um professor, pense bem, a nossa profissão é que gera todas as outras. Acha que ser médico é um ótimo emprego? E se não fosse o professor, existiria o médico ? Claro que não, então em vez de criticar, parabenize uma pessoa que em meio a tantas profissões a escolher ele preferiu ensinar, educar, alfabetizar e principalmente letrar as pessoas !

Seu post no facebook me emocionou muito, porque um dia eu tive que abandonar minha vocação – e ainda construir outra vocação, novinha em folha, para trabalhar como bancária. Sucesso!


Izaída Stela do Carmo Ornelas


sábado, 17 de janeiro de 2015

PARECÊNCIAS







Na sociedade romana antiga havia um ditado: “não basta que a esposa de César seja honesta; ela tem que parecer honesta.”
Dois séculos não foram suficientes para alterar esse comportamento.
A maioria das pessoas ainda tem uma fixação excessiva em parecer, deixando de lado o ser.
Não basta que o sujeito seja apaixonado; tem que tatuar o nome da amada... Não é suficiente ser um bom cidadão; tem que protestar... Não basta que homem e mulher sejam felizes juntos; tem que estar casados, ostentar uma aliança enorme, festejada em ocasião suntuosa. Não basta que a pessoa seja caridosa; é preciso divulgar na mídia suas ações... Não basta que você seja feliz; se não aparentar felicidade...
Não basta a virtude; é preciso o glamour da aparência.
E o empenho em ser fica sempre em segundo lugar.
O caminho inverso está, assim, delineado. O quanto de felicidade aparente nos posts do facebook é felicidade real? O quanto de decência, de honestidade, de virtude, são qualidades reais?
Escondidos, atrás da aparência, da mídia, da propaganda, estão os corruptos, os criminosos, os maus profissionais... Muitas vezes rindo de nossa credulidade; sempre posando de “coitadinhos”, quando são questionados a fundo. Graças a nossa ingenuidade, eles conseguem inverter os papéis e se convertem em “tadinhos”, mesmo tendo roubado, aleijado, lesado... Afinal, eles têm a simpatia material, enquanto a razão, que é espiritual, não tem esse apelo tão forte...
Com estas atitudes reafirmamos, subliminarmente, que acreditamos mais no material do que no espiritual. Enquanto não encontramos materialidade nas virtudes, geralmente, nós as negamos. Mas quando encontramos materializado um simulacro, um arremedo de virtude, nós tendemos a aceitar de pronto.
Assim, a mentira material recebe maior valor – e maior credibilidade - do que a verdade espiritual.
Vamos pensar mais, pensar melhor. A vida acontece além das aparências.



Izaída Stela do Carmo Ornelas


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

RESPEITAR É PODER





Não devemos – e não podemos mais – lutar enquanto minorias.
Direitos das mulheres, dos negros, dos gays, dos índios... Tudo recortado, não funciona. Fraciona o poder. E isso é tudo o que o capitalismo/materialismo quer. A divisão de trabalho é lucro desde sempre; a divisão do trabalho revolucionário continua sendo lucro...
Até hoje é difícil compreendermos a lição das varas que, juntas, não podem ser quebradas. E também aprender que somos iguais, mesmo separados por aparências: somos HUMANOS.
Injúria racial, delito sexual, homofobia, bullying... Muitos nomes para o mesmo crime: desrespeito. Muitas consequências para as mesmas causas: orgulho, prepotência, inveja, cobiça...
É crime contra o humano qualquer desrespeito à materialidade ou à espiritualidade deste.
Estamos, na verdade, falando de RESPEITO. Ou melhor, da falta dele. Com ele não são necessárias leis específicas, dividindo, mas ações que unam a sociedade em torno de algo maior que essa coleção de picuinhas e grupinhos fechados em si, com a voz sufocada.
Se é crime o racismo, por analogia, entendem-se como crimes equivalentes o deboche religioso, a ditadura da magreza, o machismo das propagandas de cerveja, a homofobia, as piadas de louras, a discriminação contra os nordestinos... A lista é grande.
Aqui um aparte: não se trata de exageros. Senão, do jeito que vai a coisa, a Sociedade das Lombrigas vai eleger seu representante no Legislativo e aprovar uma Lei contra os vermífugos, porque as lombrigas têm direito à vida. Tá rindo? Vai ver o Filme Sete anos no Tibet, com Brad Pitt, e depois me conta... O povo de lá respeita as minhocas! Juro! Vai conferir e depois comenta aqui.
Continuando nosso assunto... Há pessoas com pobrefobia. Fazer o quê? Ainda não tem “enquadramento” legal pra esse tipo de preconceito. Será que dá cadeia? Cometemos crimes velados, sem punição legal/material. E a punição espiritual? Nem queiram saber. Melhor tentar corrigir, unir e evoluir!
Brincadeiras à parte, o caso é sério. Precisamos nos unir e brigar pela causa ÚNICA do RESPEITO. Não é mais tempo do Orgulho Gay, do Cangaço de Lampião, do Black Power ou do Women’Lib. É tempo do ORGULHO HUMANO.
Não estamos juntos, aqui e agora, por acaso.

Vamos pensar nisso = Fé.
Agir nisso = Obras.
Viver isso = Amor.

Feliz Natal! Mais feliz 2015!!!



Izaída Stela do Carmo Ornelas




sábado, 15 de novembro de 2014

UM DIA DE BORBOLETA



Um barulhinho estranho... Flap, tic... De onde vem? Procuro atrás do móvel. E novo flap me faz descobrir uma borboleta, dentro de uma moringa antiga. Como foi que ela conseguiu se enfiar ali? – pensei. Bom, o importante agora é que ela precisa sair dali. Como fazer?
- Ingrid, dá uma idéia, peço.
E começamos a sacudir o vidro, virar de boca pra baixo, levar para o sol... Talvez a claridade atraísse a bonitinha. Nada.
De repente, Ingrid me conta que esse tipo de borboleta vive apenas um dia.
Foi como se ligasse um botãozinho turbo na minha cabeça. Vinte e quatro horas apenas! O que faria eu se minha vida fosse resumida a vinte e quatro horas? E você, o que faria? Quais seriam nossas prioridades?
Começo a relativizar: se o tempo de existência da terra fosse reduzido a um ano, o ser humano teria surgido às 22:30 do dia 31 de dezembro. Uma curiosidade e tanto; uma lição de humildade para tantos! Qual seria o tempo da borboleta? Estaria já madura?! Daqui a pouco seria uma anciã...






Resolvemos por fim ao cárcere da jovem, destruindo o presente que ganhamos pelo casamento, em outubro de 1987. (Desculpe-me, Gracinha Oliveira, mas tive de quebrar. Quebrei com respeito. Juro. Sei que você vai me entender.)
Fora do vidro, a beleza dela nos encantou. E a lição ficou.
Que tempo vale mais? Que matéria vale mais, a borboleta ou o enfeite? Que atitude vai fazer diferença daqui a alguns anos?
Escolhemos preservar ambos: a vida da borboleta e a lembrança da moringa.



Izaida Stela do Carmo Ornelas



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