quarta-feira, 18 de julho de 2012

S.O.L.I.D.Ã.O





Solidão...
Só lhe dão...
Lhe dão o só...
O que você pede?

Só?
É barato.
Pago o preço
Da solidão.

Enquanto

Me dão estar só
Como se fosse dádiva...



Izaída Stela do Carmo Ornelas

quarta-feira, 11 de julho de 2012

OU ISTO OU AQUILO




Deus do céu... Por que é que o ser tem que ser tão complicado?
Mesmo sob aparência simplista:
Doce ou azedo
Bom ou mau
Rico ou pobre
Corta-goela ou fura-nuca...

Jesus meu... Qual a razão dos extremos?
Na aparente simplicidade, o simulacro, o engano facilitado:
Quente ou frio
Céu ou inferno
Amor ou ódio...

Mas em todos os extremos, a presença marcante da dor.
Em cada separação, uma oportunidade abandonada.
Em cada rótulo, uma corrente.
Sobre cada cabeça, uma sentença.

Se no meio do caminho, talvez colocada por Confúcio, havia uma pedra...
E o poeta nela fixou sua atenção
Sua criatividade
Seu cuidado...

Por quê não brincar de amarelinha nos caminhos e entrelinhas?

No radical sem razão
Na razão sem paixão
No conluio de poder
Fazer:
O brincar, o sorrir e o crescer.

Escolher caminhar.


Izaída Stela do Carmo Ornelas



quinta-feira, 28 de junho de 2012

SENTIDOS



Não existem horas mais perfeitas para os mistérios das coisas que as horas escuras. Parece que a escuridão, ao prejudicar o sentido da visão, aguça o tato, o olfato, a audição, o paladar, a intuição; suspende a certeza, a convicção do real e, a partir daí, tudo pode acontecer...

Numa dessas noites, dentro de um barraco feito de tábuas e outros rejeitos do mundo civilizado, uma criança chorava. A mãe a acalentava durante um tempo que já não sabia mais... Primeiro a embalava e, com o crescer da angústia, passara a sacudi-la, sem ao menos perceber que a criança dormira...

Despertando de seu alucinado movimento por um barulho qualquer, deitou seu pequeno fardo envolto em trapos e foi avivar as brasas do fogão de lenha – sua fonte de luz e calor, pois nunca lhe servia para cozinhar o que não havia.

De repente, sua aparência conformadamente catatônica transformou-se em muito o que fazer: pegou seu caldeirão feito de lata antiga de gordura de coco, dessas que hoje nem encontramos nos supermercados, e começou a cozinhar o sustento para o sono que a fome espantava. Em seu transe, pôs-se a juntar os ingredientes necessários para fortalecer-se e a seu pequenino: ferveu seu amor para servir de base à sopa, picou boas intenções da sociedade, juntou promessas e mais promessas do governo, do padre, do pastor, do ex-marido; derreteu uma colherinha que restava do seu salário injusto, refogou em seu suor, temperou com suas últimas lágrimas de esperança. Não colocou seu passado, nem sua infância, para não correr o risco de azedar. Porque passado de pobre é muito forte! É pesado!

Assim cozinhou madrugada afora... Esqueceu-se, dormiu e acordou serena, com cheirinho de comida pronta, com balbucios e risos de criança. O barraco não era o mesmo, estava revestido de paz. No fogão de lenha um anjo mexia o caldeirão que agora era de ouro. Ao levantar-se, olhou pela janela do barraco, viu nuvens e despediu-se da noite. Seus sonhos teriam luz para realizar-se. Olhando uma segunda vez, notou que o barraco voava e seus olhos se fecharam.

Meus olhos se abriram e comecei a me preparar para mais um dia de trabalho. Meu marido trouxe o café e os jornais, cuja principal manchete anunciava: BARRACO PEGA FOGO NA FAVELA...


                 Izaida Stela do Carmo Ornelas

quinta-feira, 7 de junho de 2012

NUM DIA TRISTE



Estou feliz
porque hoje vai passar
e amanhã também.
Porque tudo vai passar
e eu, também.


sábado, 26 de maio de 2012

A VERDADEIRA FACE DO ESPIRITISMO





Após diversas indagações informais acerca do espiritismo...

Duas máximas se destacam na filosofia espírita: “Fora da Caridade não há salvação” e Amai-vos e instrui-vos”. Caridade plena é a expressão maior do amor a Deus, que habita em cada irmão. Amar e instruir são ações simultâneas, que têm como objetivo nossa construção moral através da humildade.

Em primeiro lugar, o espiritismo ensina o amor a Deus e ao próximo, conforme os ditames de Jesus. Assim, a prática e o respeito ao Bem se apresentam como forças incondicionais para a existência - e evolução - do ser humano. Além de ser um dever-direito garantido pela Constituição, o respeito a toda e qualquer expressão do Bem, é o grande distintivo entre o racional e o irracional, destacando o homem dentre outros animais.

Em segundo lugar, a ética espírita nos impede de evocar espíritos. Chico Xavier afirmou certa vez que “o telefone toca de lá para cá”. As várias cartas consoladoras que ele psicografou exemplificam esse fato. Por consequência, tem-se que a maioria de nós já ouviu relatos de alguém que tenha visto algum espírito, independentemente de sua vontade de ver. Assim, o fenômeno das comunicações e aparições, para nós, passa a não ter tanta importância... Importa a caridade, a evolução, o amor...

Porque, em terceiro lugar, o que importa mesmo ao verdadeiro espírita é o fenômeno interno, de sua reforma íntima. Partindo de uma reforma de si, adquirindo valores e virtudes, o homem estará melhor capacitado a melhorar o mundo, porque melhorou a si mesmo. E se tornará agradável a Deus.

De acordo com Alan Kardec, “reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral, e pelos esforços que faz para domar as suas más inclinações.” O espírita apenas pretende fazer de si uma pessoa de bem, do Bem.

Uma casa espírita, finalmente, é muito parecida com uma escola: livros, mesa, cadeiras, quadro de giz. Não tem imagens, nem instrumentos musicais, nem incenso. E uma reunião se parece com uma aula. Na verdade, é uma aula para aprendermos a praticar e vivenciar as lições do Cristo.

Palavras de Jesus: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará”.

Do preconceito e da injustiça, inclusive!



                               Izaída Stela do Carmo Ornelas


sábado, 5 de maio de 2012

CÍRCULO VICIOSO




Moramos em um conjugado - alugado – na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo. Viemos de um salário humilde – somemos os vencimentos. Tomamos dois ônibus lotados por dia – bem divertido; é lazer. Pagamos todos os impostos – atrasados. Usamos roupas de marcas famosas – como todos os outros casais de classe média/alta. Assim somos definidos. Auto-identificados...
Meu marido comprou hoje um jogo novo de cozinha igual àquele de novela. O velho eu reformei e coloquei no banheiro. Deu um toque muito original. Aproveitando o cartão de crédito oferecido pela loja, trouxemos uma nova geladeira, um colchão e um vídeo-cassete. Um luxo.
Concordo plenamente com minha vizinha ao afirmar que “nos dias de hoje cometer a loucura de comprar é uma necessidade”. Aproveito a necessidade de retribuir os presentes de meu marido para relaxar olhando as vitrines. Durante uma tarde em Copacabana encomendei onze vestidos, um Summer e seis jeans personalizados.
O aumento dos salários nos encorajou a adquirir uma cama nova, já que a outra fizemos de sofá e também um sofá, porque a cama era extremamente desconfortável. Acompanhando as peças, escolhemos alguns objetos decorativos que combinavam.
Na noite seguinte soubemos notícias sobre um aumento dos gêneros alimentícios. Pela manhã fui ao supermercado e trouxe quinze pacotes de comida pra cachorro. A moça garantiu que era bom. Mas não temos cachorro. Resolvemos empilhar no canto que nos serve de quarto, atrás do biombo japonês.
Passados três dias, dos vinte e oito metros quadrados ocupados, restavam-nos três: perto do fogão na cozinha, o espaço do vaso sanitário no banheiro e, naturalmente, a frontal da TV. Isso somente porque aguardávamos a chegada de alguns tecidos, produtos de beleza e tijolos tipo lajota.
Pela madrugada saímos pela rua. Felizes por ter a casa suprida. Entupida. Não mais trabalharíamos: aposentadoria. O tempo acabou passando. Pensando nisso ganhamos a areia da praia: nus. Ainda não havíamos comprado livros. Nem discos...

sábado, 14 de abril de 2012

REBELDIA






Uma religião milenar
ou simplesmente coragem?

Na volta às raízes sou rebelde.
Quando vivo a árvore: rebeldia.
No presente intenso
uma engrenagem nova
é apenas original.
Então, rebeldia.
Não escrever o que me pedem nesse momento...
Por quê?
Quero este tempo;
porque sou este tempo.
Infeliz e dependente.
Dependo de algo que não é meu
para ser diferente.
Nem a própria diferença é minha.
Ela me faz.
Oro.
Aos operários cheios de graxa
e suas Marias com fome de frutos.
Continuo: sou rebelde.
Se não faço nada
de certa forma continuo: rebelde em relação
a meu dever de não-sei-o-quê,
sempre me acomodando.
Um dia me candidato.
Quero ser prefeito do Rio de Janeiro;
empreendo uma grande obra de pintar o Pão-de-açúcar
de preto:
K.PUNK.M.METAL.U2, etc.
Hoje, eleita pelos covardes,
minha chapa é o próprio sistema.
Muito rebelde e com horário fixo na rádio e na TV.
Se eu jogasse as jóias de minha mãe pela janela:
rebelde. Ou louca.
Detrás das grades grito profecias
ao mundo que passa lá fora.
Morro junto aos ratos.
Dão meu nome ao WALL STREET.
Compram ações de minha rebeldia
e a bolsa fecha em alta.

                                   Izaída Stela do Carmo Ornelas
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