domingo, 2 de maio de 2010

No correr da vida




Na cidade de Divino
Nos idos anos quarenta
Antônia bordava flores
A vida corria lenta.

E o amor lhe chegava
Da forma mais sorrateira
Transbordando o coração
Da menina bordadeira.

Na alegria dos passeios
Na igreja e na pracinha
Os sorrisos se encontram
E o amor ali se aninha.

José em terno de linho
Antônia vestindo fustão
Formavam um lindo par
Quando aparece o senão...

Contundente e fulminante
O amor e a entrega
Sem pesar a diferença
Social que nega e cega.

Filha de ferreiro negro
Neto da escravatura
Não seria bom partido
Pro branco de linha pura.

A família do rapaz
Logo se opôs ao namoro
Mas não o fez por aberto
Para não ferir o decoro.

Cada família vivia
Seu mundo bem dividido
Ferrenha politicagem
Com seu lado e seu partido.

Naqueles dias o medo
Tomava conta do povo
Era o tempo da denúncia
Tempo do Estado Novo.

Tratavam como inimigos
Lepra, greve e comunismo
Mas a vileza maior
Estava no egoísmo.

Neste mundo atrasado
Por orgulho e preconceito
O que é bom fica de lado
E muito sonho é desfeito.

O pai de Antônia tinha
Na perna uma ferida
E acabou denunciado
De lepra desenvolvida.

A polícia levou Raimundo
E seu filho pra Ubá
Onde diversos exames
Iam se realizar.

Antônia desesperada
Esqueceu o quanto amou
Sentindo no coração
O plano que se formou.

Teve gente na cidade
Que muito vangloriou
Mas na mesma semana
Seu Raimundo retornou.

Com ele o filho mais velho
Que também fora levado
Partiram de manhãzinha
Coração aliviado.

Não tendo lepra no sangue
Contentados, mas infelizes...
Humilhação e vergonha
Foram suas cicatrizes.

O namoro de Antônia
Acabou sem um adeus
E ela viveu longos dias
Devotando-se aos seus.

A língua que delatou
E o namoro acabado
Cobraram a conta alta
Um preço inestimado.

O mal sempre se acompanha
Da fiel mesquinharia
Mas o destino encarrega
Deus de sua feitoria!

O vizinho da denúncia
Metido em mais confusão
Por aleijar um sujeito
Foi condenado à prisão.

Muito tempo se passou
José deixou este mundo
E Antônia, a cada dia,
Tinha o olhar mais profundo...

Acontece que o acaso
É disfarce da justeza.
A história não termina
Sem mostrar sua beleza.

Um primo do pretendente
Da moçoila rejeitada
Chegou à cidade um dia
E ali fixou morada.

O mundo tem seu correr
O destino seu intento
E a sobrinha de Antônia o
Recebeu em casamento.

Também eu aprendi
Recebi o meu quinhão
Raimundo, Antônia e família
Guardo em meu coração.

Os versos que hoje escrevo
São tristeza e não vingança
Porque pro mal é bastante
A visão de sua lembrança.

Os filhos que eu gerei
Deles primos-sobrinhos-netos
Além de sangue, parentes,
Compõem-se de seus afetos.

O preconceito ainda existe
No coração de quem o tem.
A maldade ainda existe
E me esquivo muito bem!

4 comentários:

  1. Mandei sementes, frutas e flores para voce... via pensamento. Sério, as flores são maravilhosas, a arvore é, as frutas são interessantes por serem bolas perfeitas, embora de cor feia, o cheiro que mata!

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  2. Estou embriagado pela riqueza destes versos, pela vida verbalizada em cada linha, em cada palavra, em cada espaço em branco... vida! Vida! Como é bom e confortante perceber vida nesse interior, nessa cidade. Obrigado por me proporcionar isso! Sirlon.

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  3. Maravilhoso, Iza! Muito inspirada! Bjos de sua sempre amiga da faculdade da cidade.

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  4. Muito bom Izaida, uma história tão antiga e tão triste depreendida da fofoca, do preconceito e da maldade sempre atuais em nosso tempo. Oremos...

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